Notícias da Semana»Insights»Câmara aprova bico de advogados da União

Câmara aprova bico de advogados da União

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 5531/16, que autoriza procuradores federais a atuarem em causas do setor privado. A proposta, de autoria do Executivo, segue agora para análise do Senado.

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara já havia aprovado o texto em maio. Como a tramitação foi conclusiva e não houve recurso, o projeto foi aprovado sem votação no Plenário.

A medida beneficia procuradores federais, incluindo os da Advocacia-Geral da União (AGU), da Fazenda Nacional e do Banco Central. Na prática, eles poderão exercer a advocacia privada em horários que não coincidam com o expediente público.

“A advocacia pública e a advocacia privada são atividades distintas, com lógicas, estruturas e riscos muito diferentes”, afirmou Jessika Moreira, diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente. “Não há evidências de que esse acúmulo de funções trará benefício algum para o Estado.”

Segundo Jessika, a decisão beneficia a elite dos servidores. “É algo que aprofunda as desigualdades dentro do próprio funcionalismo e corrói a confiança da sociedade nas instituições públicas.”

Essas categorias já estão entre as que mais recebem penduricalhos — auxílios e benefícios usados para contornar o teto salarial, atualmente em R$ 46.336,19.

Um estudo do Movimento Pessoas à Frente e da Transparência Brasil apontou que pelo menos R$ 4,5 bilhões foram pagos acima do teto constitucional a advogados da AGU e procuradores federais entre janeiro de 2020 e agosto de 2025.

A principal fonte desses pagamentos extras foram os honorários advocatícios de sucumbência, pagos pelas partes perdedoras em processos que envolvem a União e em cobranças administrativas. Esses honorários foram regulamentados em 2016.

Dados da Folha, com base no Portal da Transparência, mostram que os integrantes da AGU receberam um valor recorde de R$ 6,1 bilhões em honorários de sucumbência no ano passado. O montante foi quase o triplo do total de 2024, impulsionado por pagamentos retroativos.

O STF e o TCU determinaram que esses valores deveriam ser somados às demais verbas remuneratórias. No entanto, a regra não tem sido cumprida, e quem a burla são os próprios procuradores federais.

O Conselho Curador dos Honorários Advocatícios criou diversos penduricalhos, como auxílios saúde e alimentação, classificados como pagamento indenizatório para não impactar o valor dos vencimentos.

Pelo texto aprovado, os procuradores não poderão atuar em causas contra a União, autarquias federais e empresas públicas federais. A AGU deverá manter uma lista em seu site com os nomes dos que optarem pelo trabalho privado.

O risco, segundo críticos, é o efeito cascata: o privilégio pode ser estendido a procuradores estaduais. “Para mim é o contrário: a advocacia privada vai se tornar o ganha-pão deles, e o setor público, o bico”, disse uma fonte com trânsito em Brasília.

Avatar photo

Sobre o autor: Sofia Almeida

Ver todos os posts →